Salas de concertos entre espera “angustiante” e procura de alternativas fora de portas

182

Pequenas salas de concertos que formam um circuito informal para artistas emergentes vivem situações distintas, havendo espaços sem possibilidade de reabrir, outros que procuram alternativas fora do seu espaço e alguns que reabrem com lotações muito reduzidas.
O Carmo 81, em Viseu, funciona agora como uma sala de ensaios comunitária para duas bandas da cidade, não estando prevista a realização de qualquer concerto naquela sala de espetáculos, que permitia acolher cerca de 80 pessoas, mas onde, com as regras anunciadas pelo Governo, “caberiam 14 a 16”, contou à agência Lusa o programador do espaço, Nuno Leocádio.
“Mesmo as regras não sendo tão pesadas como estavam previstas, continuam a impossibilitar um plano de negócios viável”, vincou.
Com uma lotação tão reduzida, a equipa procura num “futuro muito próximo conseguir assumir um espaço público, em colaboração com o município”. Caso contrário, “vai ser muito complicado”, admite Nuno Leocádio.
Também a Galeria Zé Dos Bois (ZDB) está à procura de um espaço ao ar livre “que tenha uma área considerável” para poder continuar a trabalhar com o número de espectadores a que estava habituada na sua sala de espetáculos, que, com as novas regras, ficaria com uma lotação “bastante reduzida”, afirmou um dos programadores do espaço, Sérgio Hydalgo.
“Neste momento, esse espaço já foi localizado e estamos a fazer diligências e parcerias para que isso se torne exequível”, vincou, referindo que a ZDB vai também assegurar uma programação transdisciplinar a convite de uma instituição de Lisboa, num espaço ao ar livre.
O Maus Hábitos, no Porto, fez-se valer da componente de restauração que já tinha para poder assegurar uma retoma da programação musical, com uma oferta, às quintas-feiras, de concertos após o jantar, na sua sala de espetáculos.
“Tivemos que alargar o restaurante para o resto do espaço, ocupar a esplanada e a sala de espetáculos e, ao ocupar a sala de espetáculos, apercebemo-nos que, ao fundo, estava um palco”, contou o programador do espaço, Luís Salgado, referindo que os concertos serão de projetos que tenham um ou dois músicos e com capacidade para 38 pessoas.
Já o Band Venue, em Torres Vedras, uma sala privada, não tem perspetiva de reabrir.
A programação até já estava pensada para arrancar a 06 de junho, mas foi cancelada por a lotação ter de ser reduzida para um terço, disse à agência Lusa o diretor artístico da sala, Ulisses Dias.
“Eles [músicos] já ganham tão pouco. Com capacidades reduzidas a metade como é que os artistas vão ter forma de receber algum?”, questionou.
O MusicBox, em Lisboa, não tem sequer possibilidade de perspetivar uma reabertura visto que, apesar de estar inserido no circuito de música ao vivo independente, tem o seu licenciamento ligado ao lazer noturno, contou um dos responsáveis do espaço, Gonçalo Riscado
“Não posso abrir nem para duas ou três pessoas. Não estamos sequer a falar da componente da viabilidade económica”, vincou, salientando que havia vontade do MusicBox em reabrir para contribuir para o esforço de conquistar a confiança das pessoas, mesmo que isso implicasse “perder mais do dinheiro” do que está a perder neste momento.
Também o B.Leza, em Lisboa, está fora dos espaços que vão abrir portas no imediato.
“Queremos e precisamos de reabrir, mas ainda não é o momento”, disse à Lusa uma das gerentes do clube, Madalena Saudade e Silva, considerando também que as condições que vigoram tornariam o espaço inviável, para além de que o distanciamento físico no B.Leza iria contra a própria filosofia do espaço, onde o concerto, “mais do que se vê ou do que se ouve, é o que se dança”.
“Tem sido uma grande angústia. Muito ingenuamente, quando fechámos, pensámos que dentro de um mês estaríamos de volta. Não sabemos se será daqui a seis meses. A linha do horizonte está cada vez mais longe”, desabafou.
Já o Salão Brazil, em Coimbra, apesar de passar de uma lotação de 200 pessoas para 40, conta anunciar para a próxima semana a retoma da programação, afirmou José Miguel, diretor do Jazz ao Centro Clube, entidade que gere aquele espaço.
Por contar com apoios públicos, a sala quer assegurar “condições dignas” aos artistas e, por isso, assumir algum prejuízo decorrente da redução das receitas de bilheteira, explicou, avançando que não irá subir o preço de bilhetes praticados até agora.
No entanto, José Miguel assume que nem todas as salas terão a mesma capacidade de absorver esse prejuízo, acreditando que alguns espaços “vão atravessar um período de grandes dificuldades”, ao mesmo tempo que fragiliza a rede informal de pequenas salas de concertos que estava a estruturar-se.
Para Gonçalo Riscado, é fundamental “proteger estas redes de circulação”, que até estavam a dar passos para a sua formalização.
“São espaços próximos dos artistas, que dão oportunidades de iniciar carreiras, são espaços de descoberta, são espaços de curadoria”, realçou, referindo que 22 destas salas de várias cidades do país contabilizaram 964 mil espectadores em 2019, entre concertos e ‘clubbing’.
Segundo Luís Salgado, essa rede “está completamente posta em causa” e corre-se o risco de mais dia menos dia “haver pessoas a vender a mesa de mistura no OLX e a despedir os poucos funcionários que tinham e, quando retomar, ter quase nada, porque as estruturas mais débeis já viviam com alguma precariedade”.
“Desde o pequenino bar até à sala de concertos maior, passando pelo clube até ao teatro municipal, há uma série de variáveis da qual o meio está dependente. O meio artístico precisa destes espaços – do mais pequeno ao maior”, frisou Sérgio Hydalgo.
Também Madalena Saudade e Silva recorda que “grande parte dos artistas não cabem nos grandes festivais e eventos”, mas cabem em clubes e espaços.
“São salas de pequena e média dimensão que funcionam para artistas de nicho ou artistas que começaram há pouco tempo. É também essa rede que está em causa e não são com certeza as transmissões em direto [via digital] que as substituem. E isso é que me dá alguma esperança. Esse carácter de proximidade, a energia que se transmite e se troca num concerto não há direto que algum dia venha ocupar esse espaço”, concluiu.