O país através do teatro, da fotografia e de uma atriz em “Diário de Uma República"

A fotografia divide o palco com Carla Galvão que, ao longo da cena, se deixa envolver pelas imagens do quotidiano enquanto levanta questões para o público com quem contracena no “Diário de Uma República”, uma produção da Amarelo Silvestre.

“Diário de uma República” é um projeto de teatro e fotografia, uma reflexão artística sobre o que as pessoas e os locais que habitam vão sendo, na sua vida quotidiana, durante um período que a companhia prevê estender ao longo de uma década, em diferentes concelhos do país. “Que Teatro se fará a partir do que se vê?”, interroga-se a Amarelo Silvestre, na apresentação do projeto.

“Quando se tem tudo para ver, para onde é que se olha?”, questiona Carla Galvão em palco, enquanto vai “organizando” fotografias impressas em cima de uma secretária. Depois, as imagens começam a ser projetadas e “correm” o cenário. São imagens de cidades, dos seus locais, do seu dia-a-dia, num projeto que se quer a longo prazo – “porque não a 10 anos?” – para melhor desafiar respostas adquiridas.

As fotografias são de Augusto Brázio e de Nelson D’Aires que, juntamente com o dramaturgo, e diretor artístico de “Diário de Uma República”, Fernando Giestas, percorreram os locais onde a peça vai estar em cena, e que são parceiros do projeto.

Sobem assim ao palco fotografias do quotidiano de Canas de Senhorim, Nelas, onde a Amarelo Silvestre tem sede e onde fará uma antestreia na próxima quinta-feira, dia 27 de maio, antes de seguir para Loulé, que acolherá a estreia propriamente dita em 10 de junho, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Funchal, Viana do Castelo, Coimbra, Viseu, Montemor-o-Velho e Torres Novas foram as restantes localidades onde a Amarelo Silvestre fez residência artística e onde Augusto Brázio e Nelson D’Aires captaram o seu olhar.

São também estas cidades que vão acolher o “Diário de Uma República” que abriu as portas ao público para um ensaio, a que agência Lusa também assistiu, “para sentir e perceber a reação das pessoas”.

“É um exercício de lentidão, é uma ‘proposta de pausar’ e, a partir da imagem que está aos nossos olhos, questionarmo-nos sobre o que está à nossa frente. Imagens que, por algum motivo, captaram a atenção dos fotógrafos e que devem levantar questões”, disse Fernando Giestas.

“Que Teatro resultará do ato de (nos) vermos realmente?”, interroga-se a companhia. De quando em vez, no palco, uma imagem fixa-se, enche o espaço, obriga a um olhar mais atento, e a atriz levanta perguntas, questiona o público: “O que é que vês nesta fotografia? O que é que te diz? O que provoca em ti? Tiravas esta fotografia?”

O diretor artístico, que se recusa a ficar com os créditos sozinho, porque, como disse, “é uma direção artística em equipa”, adiantou à agência Lusa que as viagens foram feitas “sem guião, sem qualquer plano”. A ideia era “ir para a cidade e deixar que ela chamasse” os fotógrafos.

“Se te propuseres a ir para uma cidade com tempo, a tua curiosidade leva-te a ir ao encontro de um sítio, porque a cidade te está a chamar para ires lá, para olhares. Temos uma cidade toda para ver, mas é ali que vamos olhar, porque foi para ali que a cidade nos chamou e é esse exercício que levamos para palco, onde estão fragmentos do quotidiano que vivemos na cidade, e que muita gente vê, mas não olha”, defendeu.

“Ver por querer. Sair para ver as ruas, as pessoas, as casas, as coisas. Ver o real já imaginando Teatro. Fotografar para prolongar o olhar”, lê-se na página de apresentação do projeto.

Em palco, enquanto uma fotografia obriga a maior atenção, surgem perguntas, escritas na hora por Fernando Giestas, uma “escrita que não é obrigatoriamente a mesma de todas as vezes” que o faz, embora a base seja.

“Cada vez mais estou fascinado com a ideia da pergunta como forma de vida. Mais do que dar respostas é dar perguntas. Não é estar à espera de receber respostas é dar perguntas, dar no sentido de as lançar e de motivar o nosso caminho”, disse.

Fernando Giestas adiantou que questões como “’o que é que se passa ali?’, ‘quem são estas pessoas?’, ‘o que estão a fazer?’, ‘o que é isto?’, ‘porque é que isto está aqui?’ deixaram de se fazer e fica-se à espera de uma resposta, sem se questionar nada”.

“A pergunta aproxima-nos das coisas, dos territórios e das pessoas. Quando alguém se aproxima de mim e me faz perguntas como quem eu sou, de onde sou ou onde estudei, está a aproximar-se de mim, está a ter curiosidade, a mover-nos e a mostrar interessa”, defendeu.

No seu entender, “a certeza, que está muito mais associada às respostas, deixa as pessoas no mesmo sítio muito tempo e convencidas de que sabem alguma coisa e isso evita a procura e o próprio questionamento”.

“Quando vivemos convencidos de que sabemos, não questionamos e isso não nos permite olhar e deleitar com uma imagem que sempre esteve lá, mas nunca a vimos, porque não perguntamos, nem se quer com o olhar, porque olhar já é uma pergunta, porque de alguma forma inquieta ou fascina, seja pelo olhar ou pelo que o corpo sente”, argumentou.

A título de exemplo, falou nos percursos que se fazem nas cidades, “sempre os mesmos, porque ir por um caminho novo retira a segurança que se sente de uma rua que já se conhece” e, neste sentido, “o corpo reage e fica mais alerta, porque há um questionamento constante e, em determinadas zonas, o coração até dispara e isso levanta questões”.

Questões que são diferentes para cada pessoa, porque “têm muito a ver com a vivência de cada um, com o percurso de vida e até com o momento atual que vive”, e isso “é giro de perceber”, reconheceu.

Como a imagem de um carro que “levanta tantas questões diferentes” perante uma plateia, porque também depende da idade de quem a está a olhar e do que ela “provoca e questiona, porque muitas vezes as questões incomodam” e, por isso, “há uma tendência a rejeitá-las e a viver com as respostas adquiridas”.

E para desafiar as respostas adquiridas, o “Diário de uma República” é um projeto para 10 anos, “porque no teatro ou nas artes, em Portugal, tudo o que seja a pensar a 10 anos é utópico, porque ninguém o faz, infelizmente,” no país, disse à Lusa Fernando Giestas, cofundador e codiretor artístico da Amarelo Silvestre.

A ideia é ir questionando, “porque é preciso ver melhor, amadurecer o olhar e ‘afiar’ as perguntas, em vez das facas”, brincou, defendendo a “necessidade de se ter tempo para olhar e questionar”.

“Temos apoio da Direção Geral das Artes até 2022, depois temos de concorrer. Nada é adquirido. São ciclos de incerteza. Ninguém pensa no teatro como forma de lucro e que sustente pessoas. Nesse sentido, [fazer avançar o projeto] é também quase uma afronta, é colocar a pergunta do outro lado: porque não a 10 anos?”, desafiou Fernando Giestas.

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