NUNCA MAIS!

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Saudosamente, recordo o tempo que passou e que,

pela força da lei da vida, jamais voltará!

Caminhei, parado, estrada fora, à espera para ter filhos, escrever livros e plantar árvores.

Recordo esse distante dia de sol radiante, a permitir ver vasto horizonte, com belezas naturais que o Universo, naquela serrania beirã, por ali deixou e criou encantos às mãos cheias.

Enquanto esperava, pelo primeiro encontro amoroso, assisti na encosta da serra, pastores apascentarem ovelhas, com o corpulento cão, pastor da serra, enquanto as abelhas, incansáveis, num constante vai e vem, de queiró em queiró, sugavam na balsa – mina, o suco que depois na colmeia transformavam em mel.

Nesta contemplação, convicto de que aparecia ao encontro marcado, por nos termos apaixonado no decorrer de um baile de máscaras, aguardei mais uns minutos, também convicto dos seus sentimentos por mim e ter visto nela uma menina bonita, de rosto pequeno, delicado e de pele sedosa. Os olhos, vivos e pequenos, cheios de vivacidade de quem tudo observa e vê, com cabelos castanhos. Imagem perfeita para o meu desejo e gosto.

Quando apareceu, caminhei com ela, lado a lado, sem rumo, nem destino definido, reparando no bando de pássaros que pipilavam, sem se assustarem com a nossa aproximação e muito menos com o encostar das nossas bocas, de lábios sedosos e vermelhos a beijarem – se sofregamente, para matar mil e um desejos. Quem igualmente nada viu, foi a cabeça do Velho, por perto e que se destacava por entre outras rochas nuas enormemente sobrepostas.

Gostosamente, seguiram – se quimeras de gloria de modo ardente, sentida e vivida em realidade dispersa pelos dias e anos seguintes.

Como poeta, escrevia palavram com sentido e em forma de versos, com rima certa, eram poesias do maior desejoso, com avultado prazer de quem se sente apaixonado.

Desejosamente, veio a união de facto, para vivermos em comunhão.

Míticos de segura felicidade, apareceram filhos, plantaram-se árvores e escreveram -se livros, numa realização plena.

Anos, … muitos anos depois, voltamos ao cimo da montanha para, bem lá do alto, voltar sentir a enorme plataforma e ter sensação, sentir de novo aquele enorme abismo, a nossos pés.

Carinhosamente, abraçados, reparamos que, toda aquela vastidão, dispersa por dois concelhos, era o olhar de quem se despe e se vê nu. Mais, os sonhos, as esperanças tinham acabado. Havia um sentimento de frio, pela neve que caia sobre as cabeças brancas que a tinta disfarçava.

Imperturbavelmente, no restaurante comíamos cabrito, na padela de barro, com arroz e batata assada no forno a lenha, sentindo que a lareira já não aquecia o corpo e, muito menos, a saborosa comida já não alimentava a alma, deixando os corações de ambos, bastante doentes, sem sangue, ainda a bater, para dar vida, mas já com o sol a descer para poente, lado do ocaso, perspetivando o aparecimento do coronavírus, para dar o impulso fatal.

Nesta réstia, ficamos á espera do amanhã, de olhar plangente, ao mesmo tempo, na esperança da Flor de Liz, voltar a florescer… convictamente, nunca mais!

Fernando de Abreu (Matisse13)