Escriba – Número 44 – Entrevista a Gustavo Cruz, pintor viseense

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Quando é que alimentaste a tua fome de expressão, isto é, quando surgiu em ti essa necessidade artística?

Desde de criança que desenho. Uma das minhas primeiras memórias foi um desenho que a minha mãe fez (ela desenhava algumas vezes). Lembro-me do meu fascínio como se tivesse acontecido ontem. Entretanto, fui crescendo, a escola e a família foram “matando” a criança que havia dentro de mim. Como consequência, o desenhar passou a acontecer de forma muito silenciosa, desenhava durantes as aulas, no carro na espera pelos meus pais, por ai… mas nunca acreditei realmente que fosse possível ser pintor, é algo que não se fala, é apenas um sonho de criança, um devaneio. Andei perdido vários anos, a vida sorria-me mas eu não sorria de volta. Até que um dia, a minha tia levou-me a um workshop de desenho com modelo ao vivo, desenhei livre de tempo, fui banhado de alegria, fiz um desenho bonito, o instrutor ficou admirado, e eu também, já não desenhava há 5 anos. No dia seguinte deu um filme sobre um pintor chinês e nessa mesma noite tive um sonho. A partir daí entendi que senão me conseguisse expressar através da pintura, nunca seria merecedor e respeitador perante a vida que Deus me deu. Isto aconteceu faz 3 anos, sinto que só nasci quando isso aconteceu.

Que temáticas costumas oferecer às tuas telas? Vejo que homenageias diversos pormenores da nossa cidade.

Sou um pintor representativo, gosto de representar a natureza e tudo a que ela dá a luz. Não imagino que poderíamos sonhar algo tão belo e fantástico como a vida nesta Natureza abundante, divina. Por isso, represento paisagens, pessoas e, claro, monumentos da minha cidade; um pintor tem de pintar primeiro a sua cidade, pintar a sua raiz, mostrar a beleza que há nela. Procuro algo eterno, em tudo o que pinto, e a beleza é eterna, é permanente.

Falemos de influências. Que artistas (pintores ou outros) influenciaram a tua estética ou alma?

Curiosamente, os artistas que mais me influenciaram não foram pintores. Dostoievski, Tolstoi, Khalil Gibran, Jalal ad Din Rumi, Buda, Zaratustra, Osho, Agostinho da Silva, Sócrates, Gurdjieff. Estes são os homens da minha vida. Estes tiraram-me a venda dos olhos, estes ajudaram a minha alma a ficar mais brilhante. Do ponto de vista estético, posso dizer que o pintor que mais me encanta, Sorolla.

Consegues, enquanto pai de tela e tinta, escolher o teu quadro favorito?

Consigo. Procuro sempre fazer um quadro bonito, que tenha música. Mas sei que por vezes, por razões a nos inexplicáveis, aparecem quadros mais especiais e intemporais que os restantes.

Intitulas as tuas obras? Se sim, o título define-se pela temática da obra ou por uma espécie de invocação hermética e de difícil interpretação?

Não gosto de intitular obras. A pintura é uma arte visual, não acho que precise de bengalas. Além disso, noto que alguns pintores intitulam obras para dar a entender alguma coisa que o quadro por si só não consegue; ou por medo de o espectador não ter sensibilidade suficiente para entender a obra. E contra mim falo, porque quando o faço, é precisamente por isso. E quando dou título, é sempre algo bastante simples.

Pintas o que vês ou vês o que pintas?

Bem, os dois. Pinto o que vejo e vejo o que pinto. Observo muito a natureza ao meu redor, uma caminhada que para uma pessoa comum demoraria 10 minutos, comigo estende-se por 30. Gosto de estar sempre a observar e absorver a beleza do que me rodeia, mas também comtemplo muito os meus quadros, quando pinto desapareço, então só consigo realmente observa-los quando os acabo de pintar, e aí consigo retocar ou alterar algo. Durante o processo eu, os pincéis, as cores, a tela e o que estou a representar tornamo-nos um só. Mas a natureza é linda, é mestre, por mais que doa ao meu ego, nada é mais belo que a natureza, por isso os quadros são sempre algo morto, têm um início e um fim. Agora a vida, a natureza, o universo, são eternos.

Persegues algum sonho artístico?

Tento ser muito cauteloso quanto aos sonhos. Ter os pés bem assentes na terra e ao mesmo tempo voar em sonhos é uma das características humanas, mas a vida já me mostrou que sonhar dentro dela não faz muito sentido, a vida já parece um sonho, agora é deixar-me levar. Tudo que aconteceu de bonito na minha vida aconteceu naturalmente, sem planear, sem sonhar. Mas sou humano, e sim sonho, principalmente artisticamente. No fundo, estou cá para viver. Sinto que pintar é algo que a vida me pede para fazer, mas sei que não é tudo, e como disse um grande mestre: até os artistas, um dia, têm de crescer.

Francisco Paixão