Número 39 – Entrevista aos fundadores da Rua Fascinante

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Dois amigos viseenses, Ismael Sousa e Margarida Ribeiro, criaram o projecto de marketing digital intitulado de “Rua Fascinante”, um gesto de amor comunitário que visa dinamizar o comércio tradicional de Viseu por via de uma abordagem equilibrada na modernidade e no antigo. No flagelo semeado pelo vírus, estes jovens convidam o passado a dialogar com o presente para que as lojas viseenses conheçam o futuro. Cada pergunta desta entrevista é um passo somado na Rua Fascinante, que nos conduzirá ao sonho meritório de quem preza a cultura na qual cresceu.

NOTA: Links do projecto Rua Fascinante e angariação de fundos no final da entrevista.

Existe um parentesco de missão entre o Escriba e a Rua Fascinante. Ambos procuramos divulgar e enaltecer valores enraizados na nossa bela cidade de Viseu. Quando decidiram percorrer a Rua Fascinante?

Somos residentes da zona histórica de Viseu e com o estado de quarentena percebemos que aquilo a que se chama “comércio tradicional” iria sofrer muito com os efeitos negativos desta crise. Passeamos várias vezes pelas ruas da zona histórica e entristeceu-nos ver como algumas lojas pararam no tempo e outras não têm recursos para investir no Marketing Digital. Queremos que a zona histórica tenha vida novamente, que a população de Viseu volte ao comércio de rua, que crie memórias no centro histórico daquela que é a melhor cidade para se viver!

É desse modo que definem a missão do vosso projecto?

A missão do nosso projeto é poder ajudar os comerciantes a chegarem mais além. Se o comércio não morrer, se as lojas forem atrativas e se se souber da sua existência, então as ruas do centro histórico recuperarão alguma vitalidade do passado. Queremos ajudar os comerciantes a dar esse passo e desta forma manter lojas antigas ainda abertas, mostrar que o centro histórico não é só história, mas presente e futuro. A nossa missão é fazer a ponte entre o físico e o digital, trazendo ao antigo as oportunidades dos novos tempos.

De todos os testemunhos recolhidos entre os lojistas, quais foram as impressões predominantes? Aperceberam-se do desânimo daqueles que outrora respiraram vida e jovialidade nas nossas ruas históricas?

Dos diversos testemunhos, aquele que mais predomina é a falta de clientes, a crise e a falta de apoio que por vezes recebem. Há comerciantes que não têm interesse no Marketing Digital porque não conhecem as suas possibilidades, outros que não têm tempo e recursos. Ainda assim, a maioria dos lojistas mostrou interesse no projeto. A realidade do “antes” e do “atual” é discrepante. Antes as pessoas iam para as ruas, hoje a realidade é diferente: vai-se ao shopping ou compra-se online. Mas existem produtos que não estão disponíveis online e que só se encontram no comércio antigo. É este o grande passo que é preciso dar pelos comerciantes: a criação de uma montra digital.

Podemos assumir, então, que as grandes plataformas converteram-se numa guilhotina do romantismo comercial, não é assim?

Não se trata de ser uma guilhotina. Uma pode conciliar a outra. Por exemplo, num shopping não encontramos tecidos, bordados, entre tantas outras coisas. Mas no comércio de rua encontramos. Aquilo que é necessário é exaltar o melhor dos dois mundos. Se eu souber que na zona histórica há um certo produto que me interessa, eu vou lá e acabo por entrar numa ou outra loja. Precisamos de criar essa harmonia, de mostrar que o comércio local é tão bom quanto o comércio em massa.

Concordam que o comércio tradicional e os respectivos produtos constituem um traço identitário regional que deve ser defendido pela comunidade?

Sem dúvida alguma! Existem lojas que estão no mesmo local há gerações, que contam histórias e tradições. Há lojas a nascerem e que querem fazer parte da vida da cidade. É necessário preservar o que há e aceitar o que vem de novo. Temos de criar uma verdadeira comunidade de comerciantes, de eles se conhecerem e conseguidrem ajudar-se mutuamente. É nessa necessidade que nós entramos, podendo oferecer-lhes um serviço que tenha um custo reduzido. Um serviço personalizado, que vá de encontro às suas necessidades. O nosso projeto incide, principalmente, sobre o Marketing Digital e essa é, sem duvida, a melhor ferramenta que lhes podemos oferecer numa era em que o digital assume uma avassaladora importância. É também por isso que apresentámos o nosso projeto à Associação Comercial de Viseu para que nos possam ajudar a nós e aos comerciantes.

Pensam em contactar entidades públicas ou da sociedade civil de modo a esclarecer os mais jovens acerca da importância do nosso comércio tradicional?

Neste momento o nosso maior foco é conseguir o apoio tanto dos comerciantes como de instituições que nos possam ajudar a ir avante com este projeto. É um bebé que começa a dar os primeiros passos. Temos uma campanha de crowdfunding a decorrer para nos ajudar no início e tentar isentar os comerciantes de, por exemplo, o primeiro mês. Há muito a ser feito e muitas necessidades que precisam de ser suprimidas.
Muitos viseenses partilham da opinião de que o centro histórico de Viseu é negligenciado pelos responsáveis da cidade. Corroboram com esse prisma?

Essa é a opinião também de muitos comerciantes. A falta de apoios, a forma como interagem, entre tantos outros factores determinantes na vida comercial de uma cidade. Devemos, assim, investir nas infraestruturas, na manutenção e nos cuidados. É necessário trazer eventos a estas ruas, bem como garantir a segurança. Alguns comerciantes referiram que a falta de segurança faz com que o público não vá ao comércio local. Um caso disso é a Rua Direita, que tem locais mortos pelo temor sentido.

A Rua Direita é um caso flagrante, invadida por um certo bafio de esquecimento. Qual a vossa estratégia de divulgação?

Nós estamos a fazer vários contactos de forma a que o nosso projeto chegue mais longe e ganhe mais força. Contudo, nem todos são receptivos nesse aspeto. Não desesperamos e continuamos a lutar diariamente para que seja possível concretizar este projeto que tem muitas cartas a dar.

Estamos perto do fim. A vossa iniciativa revela amor pela nossa cidade e isso é muito respeitável. Notam algum conservadorismo nos lojistas mais velhos ou estão dispostos a aderir a novos modelos de marketing?

Existe um pouco de tudo: há comerciantes que estão dispostos a aderir, há aqueles que não estão minimamente interessados, mas é a camada mais velha que sempre trabalhou assim e não se sente à vontade de aderir. Por isso é que precisamos de todos os apoios possíveis para chegar também a eles. Pensamos que depois de começarmos será mais fácil eles perceberem aquilo que temos para lhes oferecer e até onde podem chegar!

Que mensagem gostavam de enviar aos viseenses?

Aquilo que mais desejamos de dizer aos viseenses é que vamos continuar a ser a melhor cidade para se viver, que quando esta situação acalmar voltaremos a reencontrar-nos. Que apostem no bom que tem a nossa cidade e a nossa região. Dizer-lhes que apostem também nos mais novos e que somos também ferramentas essenciais para proteger aquilo que temos, que apesar de sermos jovens, preservamos também os hábitos e as tradições da nossa cidade, que queremos caminhar lado a lado com eles: aprender as suas estórias e ajudá-los nas áreas onde nos sentimos à vontade. Que olhem este projeto como uma oportunidade e o abracem com tanto carinho como nós, para que juntos devolvemos vida ao nosso comércio tradicional!

Francisco Paixão

Link do Projecto :https://www.facebook.com/Rua-Fascinante-104413274594540/?epa=SEARCH_BOX

Angariação de Fundos: https://www.gofundme.com/f/nova-imagem-lojas-centro-historico-viseu?sharetype=teams&member=4342616&utm_medium=social&utm_source=instagram&utm_campaign=p_na+share-sheet