Número 33 – À Conversa com Gabriela Pina, ex-vocalista dos Hi-Fi

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 Lágrimas chuvosas e fulvos sorrisos de um céu hesitante. O Outono ocorria em divina metáfora para lá dos vidros do café Canto do Bosque, Marzovelos, o meu bairro, a minha casa. Existindo, tinha a chave. Tinha-me. Esperava nos bocejos da manhã glaciar (viva o café, David contra o Golias do sono!) a cantora Gabriela Pina. Licenciada em Educação Musical, participou em diversos programas de cariz musical como Os Principais (1996), os Ídolos (2004) e ainda o The Voice Portugal (2014). A sua voz garantiu-lhe vários palcos enquanto vocalista dos Arkadia, dos MAD, do AS BAND, dos SPS e do famigerado grupo viseense Hi-Fi. Falou para o Escriba como se num concerto biográfico.

A conversa, volátil como loucos dedilhados, clareou as primeiras notadas cantadas na sua vida: “Sou uma mulher da música desde que me conheço. A minha família tem muita ligação a esta forma de arte e acabei por encontrar na música a minha fuga, uma confidente nas tristezas e na euforia. Foi com a música que compreendi o mundo.”

Esteticamente, a sua pauta emotiva contrasta nas notas: “Nasci na geração do heavy metal e do punk, estilos que me apaixonam nas formas e nas lembranças. Gosto de usar a voz como uma declaração poderosa e intensa. Já cantei de tudo em palco, desde pimba, a baladas, a funk brasileiro e reggaeton. Confesso que muitos dos temas não correspondem os meus gostos particulares, mas prezo muito o profissionalismo. Em palco, interpreto uma personagem. Há uma Gabriela Pina pessoal e uma Gabriela Pina interpretativa, como se fosse um heterónimo de palco.” Quanto a inspirações, é mais perentória numas do que noutras: “A minha grande referência é o meu pai. Enquanto músico, tem uma sensibilidade extraordinária. O nosso amor é musical. Se tiver de eleger nomes nacionais e internacionais? Jorge Palma e Beyoncé.”

Foi neste balanço inevitável que a banda viseense Hi-Fi pousou sobre o chão das nossas divagações (nem sempre coerentes ou sequenciais). A nossa cantora meditava lançado anéis de fumo para o ar, numa retrospectiva melancólica e feliz. O cigarro era como um adereço de seriedade. “Estou grata ao grupo e todos os envolvidos no projecto. Cantei nos Hi-Fi por cinco anos e guardo comigo peripécias, cumplicidades, derrotas e vitórias. Acerca-se um novo projecto e estou entusiasmada com o novo rumo que escolhi.” Não notará o leitor contrastes entre as predilecções da Gabriela e o reportório dos Hi-Fi? Ela explica. “O conceito dos Hi-Fi é semelhante a um rádio sobre quatro rodas. Não existe um estilo definido, tocamos o que está em voga e aquilo que as pessoas desejam ouvir. A título de exemplo: no ano em que o Salvador Sobral venceu o Eurovisão (2016), tocámos o Amar Pelos Dois por todo o distrito. O povo estava sedento daquela canção. Quando a Kizomba estava na moda, interpretávamos essas canções com o duplo propósito de alegrar as pessoas e de garantir um certo conforto de palco.”

A respeito dos holofotes e das câmaras do cosmos televisivo, não foi necessariamente extensiva. Talent-shows, vitrines de ilusões ou promessas de luzes? “Apelo às pessoas que confiram quantos vencedores de programas musicais fizeram carreira artisticamente. Temos o exemplo do Diogo Piçarra, do Salvador Sobral, do Fernando Daniel, mas são claramente exceções. A minha intenção foi mostrar a minha voz ao país, uma forma de afirmação. “Eu sou a Gabriela Pina e estou aqui.””

A Gabriela não se encolheu em desvios quanto à actualidade musical, aprendiz leal de Euterpe, a musa da música, que espalhará maviosamente os dedos pela harpa da gratidão numa qualquer praia grega. “A música e arte no geral deu lugar ao imediatismo, ao passageiro, ao descartável. Sou nascida e criada em Lamego e habituei-me a cantar músicas tradicionais portuguesas nos barcos sobre o Douro ou comboio histórico. Aquilo sim, tinha alma, autenticidade e verdade. A música banalizou-se porque a sociedade se banalizou. Existe uma relação directa e fatal entre as coisas.”

O derradeiro cigarro moído no cinzeiro era presságio de despedida. A hora de almoço apressava-nos em compromisso e em fome. A cantora não poupou palavras aos seus fãs e não se esqueceu da nossa cidade! “Estou muito grata a todos aqueles que gostam do que faço e que me aplaudem de forma genuína. Sou feliz por fazer os outros felizes e graças a Deus tenho essa oportunidade. Nada disto seria possível sem o profissionalismo e a amizade dos companheiros musicais com quem me tenho cruzado. Viseu? Cidade berço dos meus filhos, que me acolheu com ternura e que terá sempre lugar na minha vida.” E um álbum de originais, é um sonho? “É um dos meus desejos de carreira. Quando me sentir artisticamente pronta, criarei a minha primeira obra.”

O tempo galgou pelos nossos lábios e o frio da rua rasgava-nos a pele. Surpreendente a resistência da Gabriela, que não cedeu à tentação de responder, pelo menos uma vez, em canto.

Francisco Paixão