Câmara de Viseu garante que cobertura do Mercado 2 de Maio é irreversível

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O presidente da Câmara de Viseu garantiu hoje que a execução da cobertura do Mercado 2 de Maio é irreversível e lamentou que dirigentes culturais, historiadores e arquitetos que a contestam só agora tenham dado a sua opinião.

“É um processo irreversível. Ele está no terreno e vai ser feito”, disse Almeida Henriques aos jornalistas, acrescentando que, dos 18 comerciantes aí instalados, 16 já têm acordo com a autarquia (tendo-se deslocalizado provisoriamente para outros pontos da cidade) e a empresa responsável está a montar o estaleiro.

Uma carta aberta divulgada na terça-feira exige ao presidente da Câmara de Viseu a revogação da decisão de executar o projeto de alteração/cobertura do Mercado 2 de Maio. Entre os seus subscritores destacam-se nomes como Eduardo Souto de Moura, João Luís Carrilho da Graça, José Mateus, Nuno Sampaio, André Tavares e Francisco Keil Amaral.

“Esta carta aberta vem com sete anos de atraso, porque o debate sobre esta matéria começou em 2014”, frisou o autarca, contando que nem a carta lhe chegou às mãos, nem qualquer um dos subscritores participou no processo de discussão pública.

Os signatários consideram que o projeto de cobertura “constitui um grave e inadmissível atentado patrimonial e urbanístico”, e referem que, “num desrespeito despudorado pelo trabalho autoral e pelo património da cidade, o atual executivo camarário ignorou os arquitetos Álvaro Siza e António Madureira, autores do projeto executado nos anos 90 do século XX”.

“Estranhamos que, sete anos depois, se queira reabrir um dossiê que já está encerrado. Há um tempo para debater, há um tempo para decidir e há um tempo para fazer. Estamos no tempo de fazer”, reagiu Almeida Henriques.

O autarca lembrou que a obra, que tem um prazo de execução de 602 dias, “não resulta de um capricho do presidente da Câmara”, mas sim de um concurso de ideias e de “um amplo período de debate público que o município entendeu como fulcral, tendo em conta a relevância deste equipamento” para a dinamização do centro histórico da cidade.

Segundo Almeida Henriques, o arquiteto Siza Vieira foi envolvido no processo, tendo assinado uma declaração onde expressa que “autoriza a utilização dos desenhos disponibilizados à Viseu Novo Sociedade de Reabilitação Urbana”.

“Só quem não vive em Viseu é que não pode entender que o que está feito serve as populações”, realçou, lembrando que o objetivo é “tornar o espaço utilizável 12 meses por ano”, como praça de restauração e eventos, sem alterar a estrutura do mercado.

O autarca contou que “os comerciantes até o apelidam como o cemitério do centro da cidade”, porque não é fruído a maior parte do ano, quando, na verdade, “tem de ser uma âncora do ponto de vista da interação com o centro histórico”.

“Vai transformar-se numa praça de restauração e eventos. Tem o projeto aprovado pelos fundos comunitários, o parecer positivo da Direção Regional da Cultura do Centro e todos os pareceres que tinha que ter tido”, frisou, acrescentando que a obra “tem já quase 60% de fundos comunitários assegurados e poderá vir a reforçar esse montante”.

O presidente da autarquia lembrou que aquele equipamento foi inaugurado em maio de 1879 e sofreu alterações em 1914, nas décadas de 20, 40, 70, 90 e, “a mais polémica, entre 2000 e 2002”, quando deixou de ter a utilização de mercado municipal.

“Ainda hoje a população não se conforma com o facto de ter perdido esta âncora no centro histórico, que era o mercado municipal que lá estava instalado, e muito menos se conforma com o resultado final”, afirmou.

A obra agora iniciada – que contempla a cobertura para utilização 12 meses por ano, a reabilitação de lojas e respetivos telhados e a instalação de sistema de climatização – representa um investimento global de 4,3 milhões de euros.

A cobertura, com cerca de 4.300 metros quadrados, incorpora painéis de vidro fotovoltaicos inovadores para produção de energia para o próprio espaço e edifícios adjacentes.