Uma antestreia e seis estreias até dezembro no Teatro Viriato em Viseu

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A antestreia de um espetáculo e seis estreias, uma das quais em ‘streaming’, em parceria com mais cinco cidades do mundo, destacam-se nas atividades multidisciplinares do Teatro Viriato, em Viseu, que hoje apresentou a programação até dezembro.

“São seis ou sete estreias em três meses, o que é impressionante! São vozes e estilos de orientações muito diferentes. (…) São imensas estreias, porque também é uma marca do Teatro Viriato, que sempre foi uma casa de produção e de criação de muitos artistas, tanto de dança como de teatro, e vamos abrir com uma estreia”, anunciou a diretora artística.

Patrícia Portela, que assumiu funções há meio ano, mas fez hoje o seu primeiro ato público, anunciou a peça “Três irmãos”, de Vistor Hugo Pontes, que se estreia no próximo fim de semana e “é algo que emociona muito e que revela muito a violência, mas também o carinho e a ternura destes tempos”.

“A peça do Victor Hugo Pontes, para mim, é muito importante, porque era uma peça que poderia não ter acontecido se não houvesse um Teatro Viriato a apoiar e a dizer ‘força, tens aqui uma casa, tens aqui as condições e estamos todos aqui contigo’, e isso é algo que já fazia parte deste teatro”, admitiu.

A diretora explicou que a programação hoje apresentada “já estava toda desenhada” pela equipa, sob a coordenação da antiga diretora, Paula Garcia, e, por isso, a sua função “foi muito de aprender e estar à altura de defender e de acolher esta programação nestes tempos”.

No primeiro fim de semana de novembro, acontece a estreia de “Talvez… Monsanto”, que marca o regresso de Ricardo Pais ao Teatro Viriato, ele que produziu o espetáculo de inauguração da sala, “Raízes Rurais, Raízes Urbanas”, em 29 de janeiro de 1999.

Ainda em novembro, estreia-se “Sinais de pausa”, uma produção da Companhia Paulo Ribeiro com São Castro e António Cabrita e, logo a seguir, “Coreografia”, de João dos Santos Martins, em mais uma estreia na área da dança.

Ainda na mesma área artística, o Teatro Viriato tem mais duas estreias agendadas: uma em novembro, “Faustless”, de Margarida Belo Costa; e, em dezembro, “Gabo”, com Patrick Murys, e o projeto radicado no Funchal, mas, como disse a diretora, com “um grande braço direito e o coração em Viseu”, Dançando com a Diferença.

Patrícia Portela adiantou que o teatro “tem muitos palcos, as diversas plataformas que foram usadas durante a pandemia e que vão permanecer”, nomeadamente os espetáculos em ‘streaming’, aquilo que a diretora assumiu como “o subpalco do teatro”.

E é nesse ‘subpalco’ que acontece a outra estreia, do grupo de teatro jovem residente no Teatro Viriato, Que Cena, que trabalha com outras cidades de países de língua portuguesa como, por exemplo, Brasil, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, além do Teatro Nacional Dona Maria Ii, em Lisboa.

“Por causa da pandemia não se puderam encontrar, mas todos continuaram a trabalhar à distância e vão apresentar um trabalho a partir de ‘O triunfo dos porcos’, de George Orwell, num projeto que se chama ‘A Gaiola’, e que vai ser apresentado em cinco cidades simultaneamente no dia 25 de outubro, e isto é muito bonito”, descreveu.

A única antestreia que vai acontecer nesta sala de espetáculos é da responsabilidade do artista residente João Fiadeiro, “Este afeto que me ocupa”, um documentário que vai ser exibido no dia 21 de novembro.

Esta temporada conta, para além das estreias, com apresentações de produções como, por exemplo, “I am not your negro”, de Raoul Peck, “Aurora Negra”, de Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema, Dino D’ Santiago, “Noite Fora” de José Maria Vieira Mendes, “Cantigas da Lua”, com Luís Lapa, “Dentro do Coração”, com Márcia Lança, e “Comédia de Bastidores”, de Alan Ayckbourn e encenação de Nuno Carinhas e João Cardoso.

A sala de espetáculos acolhe, igualmente, apresentações de parceiros locais como, e pela primeira vez, o “Que jazz é este?, da Gira Sol Azul, com Mário Laginha Trio; o festival “Vista Curta” do Cine Clube de Viseu; o Festival da Primavera, com o Conservatório de Música Dr. Azeredo Perdigão. Ou seja, “há muito da cidade [de Viseu] dentro do teatro”.

“Do trabalho com as escolas, que neste momento é uma incógnita, decidimos manter toda a programação e perceber a passo e passo com os artistas, com as escolas, com os professores, alunos e pais, em que formato e de que maneira vamos continuar a permitir que os alunos possam ver espetáculos e aceder a outros objetos que não só os que são oferecidos numa escola”, disse.

Na conferência de imprensa de apresentação desta temporada do Viriato Teatro Municipal, o vereador da Cultura da cidade, Jorge Sobrado, elogiou a programação e assumiu “o compromisso de estabilidade na execução e no cumprimento das suas obrigações para com a casa e o projeto”.

“Às políticas e às instituições pede-se previsibilidade e nós seremos um parceiro previsível. É também aquilo que pedimos e que esperamos de quem tem também essa responsabilidade nas políticas culturais nacionais: previsibilidade. Ausência de uma definição dos apoios do Estado central e a ausência de um diálogo estruturado com os municípios não ajudam nessa previsibilidade”, apontou Jorge Sobrado.

Sobre o orçamento e o “impacto incrível” que a pandemia provocou no Teatro Viriato, a diretora não traduziu em números, mas fez questão de afirmar que “é muito difícil, mas não deve haver muitas equipas” como a que gere, que “trabalha dia e noite, fins de semana, às vezes, pondo em causa almoços, jantares e outras necessidades básicas, para compensar o impacto”. Mas, acrescentou, “foi uma coisa que nunca foi falada, já era assim e continua a ser assim, não é uma posição, é isto”.

Para sustentar que “há questões que não se colocam”, porque, no seu entender, “a equipa está a fazer exatamente aquilo para o qual foi feita para fazer”, e “um teatro como este está a fazer tudo o que estiver à mão e fará sempre tudo”, e ainda “porque o teatro é uma ideia fixa”, Patrícia Portela citou Emil Cioran, o autor de origem romena, do livro a acompanhava:

“Enquanto o ser humano for protegido pela loucura de ter uma ideia fixa e queira fazer com que ela funcione e floresça e que se consiga render à tirania das boas ideias, ele está sempre safo. Quando ele decidir fazer acordos, decidir começar a fazer menos do que aquilo que ele acredita, ele deixa de ser uma pessoa e deixa de ser incondicional para ser só mais um a sobreviver”, leu.

E acrescentou: “Não vamos questionar se vamos existir. Vamos existir. Fomos nós que decidimos, não é a tragédia que decide por nós. É uma coisa grega, vem do teatro e nós vimos dessa linhagem”.