NOS TRILHOS DE NOSSA SENHORA DA LAPA – UMA DAS MAIS ANTIGAS ROMARIAS DE PORTUGAL

Para quem não conhece o Santuário da Senhora da Lapa, situa-se na serra com o mesmo nome a 915 metros de altitude, muito próximo da nascente do Rio Vouga e insere-se na freguesia de Quintela da Lapa Concelho de Sernancelhe na Diocese de Lamego, distrito de Viseu.

Já foi o mais célebre Santuário Mariano das Terras de Portugal e um dos mais importantes da Península Ibérica, logo a seguir ao de Santiago de Compostela.

Foi daqui, e graças à acção dos Jesuítas que irradiou o culto da senhora da Lapa para Lisboa, Porto, Braga, Póvoa de Varzim, Condeixa á Nova, Paredes de Coura, Sardoal, Vila Viçosa, Vila Flor, Arcos de Valdevez etc e também no Brasil, Palop´s e Goa encontramos igrejas e capelas e até povoações com este nome (Senhora da Lapa) cuja matriz se encontra neste bocadito de terra da Beira Duriense.

A sua fundação tem origem nos acontecimentos do ano 1498 e a sua história resume-se no seguinte:

 

“No ano de 982 o célebre e hábil general mouro, Al-Mançor, atravessou o rio Douro para a margem esquerda e, tendo destruído Lamego, avançou sobre Trancoso.

No caminho, o seu exército arrasou o convento de Arcas, martirizando várias religiosas, entre elas, Comba Ozores (ou Osório), que seria a Superiora.

Depois de atravessarem a serra da Nave chegaram ao convento de Sismiro, situado no local onde hoje é a Quinta das Lameiras, freguesia de Pinheiro, concelho de Aguiar da Beira.

Parte das religiosas deste mosteiro foram também martirizadas, mas algumas conseguiram escapar da sanha cruel do chefe mouro. Teriam, segundo a tradição, levado uma imagem de Nossa Senhora; e, embrenhando-se nos matos da serra, procuraram abrigo ou esconderijo. Chegadas a cerca de uma légua de distância, encontram-se num deserto de fragas e penedias onde descobriram uma gruta ou lapa, ali escondendo a imagem, livre agora da profanação dos inimigos de Cristo”.

Lá permaneceu escondida durante 515 anos, até que, em 1498, uma Pastorinha A encontrou.

Essa Pastorinha era muda de nascença e chamava-se Joana..

Trouxe a imagem para casa, cuidou dela, e com a sua simplicidade e fervor fez-lhe um vestido novo, já que as vestes que tinha estavam desgastadas em consequência da humidade da Gruta. A mãe, um dia, já farta das atenções e carinhos que a Joana dispensava ao seu “tesouro”, pensando que era uma boneca, lança-a à fogueira.

E o milagre aconteceu:

– “Ai minha Mãe o que fez? – É Nossa Senhora”…

E enquanto a mãe ficou paralítica do braço com que precipitou a imagem no lume (curada mais tarde também por milagre da Virgem da Lapa), a Joana desatou a falar, contando tudo o que lhe acontecera, ao fim de ter prontamente retirado a Imagem das chamas sem que o fogo lhe tivesse causado quaisquer danos.

De repente a noticia  espalhou-se e o Abade de Quintela apressou-se a ordenar que a imagem fosse posta na Igreja Matriz; mas esta desaparece e volta a aparecer no local onde foi encontrada, facto que, segundo a tradição, se repetiu por várias vezes.

A partir desta data o culto da Senhora da Lapa irradia-se por toda a Península Ibérica e, mais tarde, pelo Império Português. Àquele lugar, ermo, situado entre o Douro/Vouga e Távora acorrem gentes de todo o lado tal como diz o Padre António Cordeiro no seu “O Loreto Lusitano” escrito em 1718, uma obra indispensável para quem queira conhecer e compreender os acontecimentos da Lapa.

“São tantas as Procissões, que ainda de terras, e Províncias muito diversas vão á milagrosa Senhora da Lapa em cada um ano, e em todos, que por escutado tenho a numerá-las, pois os que na Lapa assistiram algum ano, experimentaram o tempo, em que vem gentes até de Castela, então vem da Província Transmontana; em que vem da Interamense (curiosa esta expressão), especialmente do Porto, de Braga, e de Amarante, e Beira mais distante, como de Coimbra, e Aveiro, da Guarda, e Penamacor, e de toda a Serra da Estrela, por onde vem também até do vasto Além Tejo, e ainda do Reino do Algarve; e da própria Estremadura, e Corte suprema de Lisboa; pelo que só tocarem aqui as terras, (e não todas) que por obrigação de grave voto, cada ano, uma vez ao menos, e com oferta de cera, e Andores cheios dela, e o tempo em que, por livrar esta senhora as terras da lagarta.”

Com a entrega do Santuário à companhia de Jesus (por volta de 1576), a Lapa transforma-se num privilegiado centro de encontros de pessoas vindas dos mais diversos pontos de Portugal, Castela, Galiza e até da Catalunha.

Havia pontos altos no calendário, sendo de realçar, a festa da Anunciação de Nossa Senhora (25 de Março), Segunda-Feira do Espírito Santo, S. Barnabé (11 de Junho), Assunção da Senhora ao Céu (15 de Agosto) e Natividade de N. Senhora (8 de Setembro).

Aliás a Romaria de Nossa Senhora dos Remédios, de Lamego, entre outras, estou certo que cresceu muito, graças às passagens de peregrinos a caminho da Senhora da Lapa. Ainda hoje, muitos Romeiros, sobretudo do Minho, Douro Litoral e Trás os Montes têm por hábito visitarem os dois Santuários. E não teria sido por acaso que o 8 de Setembro foi escolhido para o Dia da Senhora dos Remédios pois coincidia com a última peregrinação do ano à Senhora da Lapa.

Outras Romarias mais medianas surgiram também dos trilhos da Senhora da Lapa como é exemplo a Romaria do Senhor dos Caminhos das Rãs (Sátão), que não era mais do que “o Senhor dos Caminhos da Lapa”.

Com a extinção das ordens religiosas em 1834 o Santuário da Lapa, habituado que estava ao amparo dos Jesuítas, sofreu um rude golpe com a expulsão e espoliação desta instituição religiosa. Se houve uma quebra no seu estatuto e na afluência de romeiros, a Senhora da Lapa continuou a impor-se como uma referência regional , sobretudo para a Diocese de Lamego, e também para as vizinhas Dioceses de Viseu, Vila Real, Miranda/ Bragança, Guarda e gentes do Minho, Douro Litoral e Beira Litoral.

Como vimos atrás, nos princípios do século XVIII já muitas paróquias ali iam com procissões individuais (com cruz alçada e missa própria, também individual dentro do Santuário), no cumprimento de promessas feitas por Nossa Senhora ter acabado com pragas de lagartas que destruíam as sementeiras.

No século XIX uma outra promessa colectiva obriga ainda hoje dezenas de cruzes Paroquiais a peregrinarem até à Senhora da Lapa em troca de Ela ter acudido a uma praga de gafanhotos (saltarecos) que dizimavam as searas.

A Senhora da Lapa (local e romaria) também é uma referência obrigatória e incontornável para quem se debruce sobre o Folclore e Etnografia da Beira-Douro ou talvez numa designação com mais força anímica, para as terras da Beira Duriense.

Aqui se cruzaram culturas e terras vindas de diversos pontos do País e da vizinha Espanha.

Durante séculos, as crianças de toda esta região, ainda ao colo de suas mães, aprendiam  os caminhos que iam dar á Lapa, e não há terra nenhuma desta região que não tenha as suas coisas próprias para contar relacionadas com a Senhora da Lapa.

Mesmo já em pleno século XXI pisar aquele lugar é como que um reencontro com esses séculos que já passaram, o reavivar dos multiplos milagres da Senhora que deu fala à Pastorinha muda e acompanhou os nossos marinheiros nas Descobertas   e, ao mesmo tempo, o reviver de um passado bem enraizado por diversas gerações cujas vozes aquelas pedras graníticas gravaram, e hoje nos contam como foi há cem, cento e vinte, duzentos, quinhentos  anos atrás…

Assim as queiramos ouvir e compreender.

 

(Este artigo foi escrito na Segunda Feira do Espírito Santo , dia a seguir ao Pentecostes,  uma das datas em que, se recuarmos, apenas, cerca de duas décadas atrás, todos os caminhos de muitas das regiões do país iam ter ao Santuário da Senhora da Lapa.

 

 

 

Jorge Oliveira Pinto

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