Gente da Minha Terra Episódio 4 – Grão Vasco

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Onde Grão Vasco nasceu, um génio de pintor-nato”. Eis uma das linhas melódicas do hino de Viseu, que apresenta com pompa regional a origem do maior pintor renascentista de Portugal. Da humilde paleta deu rosto ao imortal. Invocamos, no regresso da rubrica Gente da Minha Terra, um dos nomes mais ilustres da região.


Vasco Fernandes, nascido em Viseu por volta de 1480, sentou-se com génio-nato no trono da pintura portuguesa renascentista do século XVI, ladeado dos grandes mestres da Ibéria. A influência do traço flamengo e italiano expressa-se no realismo sagrado que adornou, além da carreira de Grão Vasco, os retábulos da Sé de Lamego e da Sé de Viseu. Diversas casas católicas foram beijadas pelo génio do viseense, numa euforia de cores celestes e magníficas imagens. Terá apurado a virtude na oficina artística de Jorge Afonso, pintor d’El Rey D. Manuel I, outro titã de lusas aguarelas, na cidade de Lisboa, embora seja inegável a simpatia estética por traços e maneirismos estrangeiros, o que leva os historiadores a deduzir que o pintor-nato estudou em oficinas italianas e flamengas ou que terá convivido com artistas oriundos dessas regiões. Gaspar Vaz, outro viseense, foi o maior discípulo do saber cromático de Grão Vasco.

A predilecção por pintura sacra, característica evidente no percurso de Grão Vasco, motivou a encomenda de D. Miguel da Silva, bispo de Viseu, daquele que seria uma das pedras mais preciosas da corrente renascentista portuguesa: São Pedro. O pescador galileu a quem Cristo confere o cajado do seu rebanho e as chaves da Igreja, é representado a fino óleo sobre um painel de madeira dividido em três partes. O realismo impresso nas feições do primeiro líder da Igreja Católica, sentado sobre um trono de glória, rapta os olhares dos sedentos de beldade e dos fartos de indiferença. As dimensões 215 cm × 233,3 cm parecem insuficientes. Esta obra, como muitas outras, está exposta no Museu Grão Vasco graças ao empenho bairrista e sempre dedicado do Capitão Almeida Moreira, do qual já falamos nesta rubrica. O corpo de Grão Vasco está nas suas pinturas, espalhado em cada gota de tinta que não secará jamais. Viseu, mas acima de tudo Portugal, agradece.

Francisco Paixão