EXPOSIÇÃO DE ARTUR BUAL “A PINTURA DILACERANTE” | 31/10/2020 A 20/12/2020

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A galeria o Rastro – Figueira da Foz, inaugura,  dia 31 de Outubro, sábado,  a exposição de Pintura – “A
Pintura Dilacerante” do artista Artur Bual.

PELAS RAZÕES QUE SE IMPÕEM, ESTA EXPOSIÇÃO IRÁ REALIZAR-SE SEM INAUGURAÇÃO.

PODERÁ SER VISITADA (ACATANDO AS REGRAS DA DGS) A PARTIR DAS 15.00 DE SÁBADO, DIA 31 DE OUTUBRO,

PROLONGANDO-SE ATÉ DIA 20 DE DEZEMBRO.

A Emotividade Dilacerante da Pintura

Nascido em 1926 em Lisboa, Artur Bual cedo se revelou um dos artistas mais dotados
da sua geração, considerado um pioneiro da pintura gestual em Portugal, desde o
início dos anos cinquenta.
Efetivamente, Artur Bual foi um dos primeiros pintores gestuais abstratos portugueses
que participaram no I Salão de Arte Abstrata, em 1954, organizado pelo historiador e
critico de arte JoseAugusto França, na Galeria de Março – Lisboa. Foi distinguido pelo
Sindicato dos Críticos de Arte de França, na I Bienal de Paris, em 1959, onde o então
jovem artista português mereceu as seguintes palavras elogiosas de André Malraux:
“La peinture de ce jeune portugais (Bual) contient la charge et l’emotion du silence
eloquant de la poesie”.
Foi Premio Nacional de Pintura Amadeo de Souza Cardoso, em 1959.

Acontece que, para ele, a pintura não era coisa fácil, mas algo que o mantinha
permanentemente inquieto e vivo.

Nessa perspetiva, o artista não tinha receio de assumir os aspetos mais contraditórios
de uma arte de expressão direta, aparentemente caótica, que tentava resolver,
quantas vezes com mestria, em termos eminentemente plásticos.

Ao longo de cerca de 50 anos de pintura, o seu gestualismo de vocação
expressionista sempre se debateu entre a abstração e a figuração, na apropriação de
um espaço cenográfico, onde se inscreve o ritmo convulsivo do gesto do pintor.

A sua paleta não abdica do claro-escuro do cromatismo tonal, que sugere
profundidade e luminosidade, ao associar o negro a uma gama de tons sombrios de
cinzentos e castanhos, de cuja densa obscuridade irrompem, por vezes, súbitos
clarões de brancos, vermelhos sanguíneos, amarelos pálidos e azuis-claros.

Curiosamente, é no princípio e, mais deliberadamente no fim da sua carreira, que
melhor se afirma a sua pintura gestual abstrata, expansiva e informal, onde sobressai
o ritmo sincopado de pinceladas sobrepostas que, numa agitação frenética, aceita os
escorridos e os salpicos de tinta, na expressão direta e total do gesto. Ao faze-lo cria
uma linguagem espontânea que, pela sua carga emotiva, exasperação dramática e
forte conteúdo humano, se abeira do expressionismo abstrato. Oscilante entre o
telúrico, o orgânico e o cósmico, o informalismo matérico de Bual converge, nos anos

50, com o dos espanhóis seus contemporâneos: Villacasas, Tarrats, Pijuan, Viola,
Feito, Millares e Tapies. Na mesma cumplicidade contra a desoladora realidade social,
marcada pela guerra, os seus trapos colados sobre tela exprimem essa memória
trágica.
No caso de Bual, também transparece a memória sinistra do negro e do vermelho
sanguíneo (cor de sangue de boi) de uma infância complexa, vivida em Torres Novas.

O expressionismo abstrato, que se vinha anunciando desde os anos 50, atinge ampla
e significativa dimensão nos anos 90, nomeadamente nas últimas telas, executadas
em 1998, no ano que antecedeu a morte do pintor, em Janeiro de 1999. Essas últimas
telas são o testemunho gritante de uma existência atormentada, sedenta de infinito.

Numa visão retrospetiva, a figuração e a abstração alternam e, frequentemente, se
confundem, na obra de Artur Bual.

É nos retratos de conhecidos Escritores Portugueses, como Bocage, Camilo Castelo
Branco, Aquilino Ribeiro (1963), Antero de Quental (1983), Fernando Pessoa (1988),
Jose Gomes Ferreira (1988), Florbela Espanca (1996), Natália Correia, Sofia e outros,
que o talento do pintor vai ao encontro do gesto dominante.

Na descendência de Columbano e outros Mestres Naturalistas Portugueses que
admira,
Artur Bual tenta conciliar a conceção tradicional do retrato em claro-escuro com o seu
gestualismo impulsivo, conseguindo uma vigorosa expressão dramática.

Por vezes, o rosto humano se transfigura em máscara fantasmagórica,
designadamente nos retratos imaginários dos poetas: Teixeira de Pascoais (1987),
Camões (1990) e Mário Cesariny (1990). Nestas e noutras máscaras dilaceradas pela
dor e tragédia, perpassa alguma evocação goyesca, na sua fase negra.

De temperamento expressionista, o gesto do pintor tende a romper com esquemas de
representação convencional, quer nas cabeças de “Cristo”, quer nas “Crucificações”,
que sintetizam a paixão e a angústia existencial do homem contemporâneo.
(…)
Em Portugal, nomeadamente desde o 25 de Abril de 1974, Dia da Liberdade, Artur

Bual pintou ao vivo telas de grandes dimensões, nos Encontros Internacionais de Arte,
nas Bienais de Cerveira e em outros locais públicos. Quer aí, quer no seu atelier-cave
da Amadora, aberto ao convívio de amigos e admiradores, muitos tiveram o privilégio
de ver como o pintor se dava de corpo e alma à articulação do seu gesto estrutural,
que se apodera do espaço, sem deixar de sentir o élan vital de toda a composição.

Jamais desvinculada da emoção que a motiva, a sua pintura, tão incómoda quanto
profundamente inquieta e ávida de mil sensações, não abdica da dimensão humana,
pelo que se torna dramática, exasperante e, ao mesmo tempo, sensual e fraterna. Ao
assumir o seu ofício de pintor como um ritual de todos os dias, o artista pintava quase
incessantemente. Pintor por instinto, Artur Bual atinge a maturidade do seu próprio
estilo, consequentemente de uma longa e persistente prática.

Pela profundidade humana e verdade intrínseca que exprime, a sua pintura não nos
deixa indiferentes, antes nos torna cúmplices do drama em que se envolve e nos
envolve, através da problemática estética que suscita.

Em algumas obras mais audaciosas e menos conhecidas, a pintura integra a colagem
de materiais pobres, formando relevos, que exaltam a aspereza da matéria e a
violência agressiva da mancha. Sobre não importa qual suporte (tela, madeira, cartão,
papel), tudo lhe serve de pretexto para intervir com a sua marca pessoal.

A pintura de Bual não se cinge à mera explosão catártica do instinto, é muito mais do
que isso, persiste em algo que a transcende. Ao absorver a complexidade do drama
humano, há uma angústia latente em tudo o que projeta no papel ou na tela em plena
concordância com a própria vida.
Eurico Gonçalves
Pintor e Crítico de Arte