CHTV e atividade programada na saúde

“E depois?

Muito faltará ainda por descobrir nos anos e décadas vindouros sobre o
impacte da suspensão da atividade programada não-emergente que ocorreu
desde o início do primeiro confinamento contra a disseminação do
SARS-Cov2. Do pouco que já conseguimos ver, temos um longo inverno
pós-pandémico pela frente, por mais que algumas Alices continuem a
acreditar que vivemos num País das Maravilhas.

A cidade e o concelho de Viseu foram das regiões mais afetadas do
interior com o impacto da disseminação do SARS-Cov2 e com a sobrecarga
que os internamentos por Covid19 causaram no sistema de saúde. Enquanto
o Governo da República, o Partido Socialista local e nacional e a
esquerda política local e nacional travaram lutas contra inimigos
imaginários nos setores privado e social de prestação de cuidados de
saúde ou nas farmácias comunitárias— quais Dom Quixotes contra moinhos
de vento — os liberais nacionais e locais pediam a integração total da
capacidade instalada.

A insistência ideológica na pureza dum Serviço Nacional de Saúde estatal
e na perpetuação da segregação entre os que podem pagar melhores
serviços e os que vivem à mercê do que o Estado se lhes permite oferecer
resultou numa paragem história na atividade programada de consultas
hospitalares e em cuidados de saúde primários e um congelamento de
cirurgias não-emergentes durante meses.

O preço do cancelamento de programas de rastreio oncológico começou a
ser pago por utentes com o diagnóstico recente de carcinomas da mama em
estadio mais avançado que o habitual pré-pandémico ou com o aumento dos
diagnósticos de neoplasias gastrointestinais em estadio não-inicial em
ambiente hospitalar, e a conta final só poderá ser avaliada dentro de 15
ou 20 anos, quando as ações de negligência na gestão do sistema de saúde
e as consequências da falta de investimento por governos do Partido
Social Democrata e, principalmente, do Partido Socialista com a ajuda da
esquerda parlamentar, autointitulada como anti-austeritária, na saúde
pública.

O preço do cancelamento de consultas regulares nos cuidados de saúde
primários paga-se com a descompensação de doenças crónicas, como a
hipertensão, diabetes ou insuficiência cardíaca, encharcando os serviços
de urgência e enfermarias hospitalares e com o agravamento do acesso a
cuidados de saúde por parte de populações infoexcluídas, de estratos
económicos mais baixos ou contextos sociais menos favoráveis.

O preço do cancelamento de consultas hospitalares paga-se também pelo
aumento grave dos tempos de espera que ocorreram durante todo o ano de
2020 e o primeiro semestre de 2021. Ainda que sabendo que no CHTV se tem
feito um esforço hercúleo de tentativa de recuperação dos tempos de
espera, com menos 40% de utentes em lista de espera para consulta
hospitalar há mais de 12 meses com comparação com igual período de 2020,
de pouco vale comparar com um ano que deixou pelo país fora mais de 1
200 000 consultas por realizar nos hospitais do SNS. Mais exemplos são
os ainda 1455 dias (quase 4 anos!) para uma consulta normal de Ortopedia
ou 400 dias para uma consulta normal de Cirurgia Geral.

O preço do cancelamento das cirurgias programadas paga-se com os mais de
100 dias que os doentes em lista para cirurgia oftalmológica ainda
aguardam no CHTV e o nível ainda longe dos valores pré-pandémicos de
atividade dos blocos operatórios nos dois hospitais que o integram.

O muito que tem sido possível recuperar ao longo deste ano tem-no sido à
custa da dedicação e compromisso dos profissionais de saúde e técnicos
auxiliares, tantas vezes à custa da realização pessoal, familiar e
social e da sua saúde física e mental. Se nos corredores do CHTV se
replicar aquele que é um sentimento comum nos trabalhadores do Serviço
Nacional de Saúde, a maioria está exausta, desmotivada pela falta de
vencimento digno para o quanto da vida familiar e social têm que
abdicar, pelas horas extraordinárias intermináveis e pela cada vez maior
sangria de recursos humanos para os restantes setores da saúde ou — cada
vez mais — para fora do país, numa recriação do êxodo nacional durante o
Estado novo, desta vez com quadros altamente qualificados.

Também na incontornável temática do Centro Oncológico (CO), a tutela não
tem sabido responder às exigências do momento — que se arrastam há mais
de 2 décadas — e aos anseios de cidadãos e utentes de Viseu e da região.
Depois de prometida em dezembro a apresentação do plano completo até
finais de junho, só por pressão diária da Iniciativa Liberal Viseu se
deu a revelação do que não passa dum render de design gráfico, sem
qualquer estrutura de organização de serviço, sem programa de prestação
de serviços, sem projeto de arquitetura, sem submissão a fundos
comunitários. Um fogo de vista entregue, de forma nada insuspeita, em
primeira mão ao candidato do Partido Socialista à Câmara Municipal de
Viseu dias antes de ser dado conhecimento geral aos viseenses.

Sabemos hoje que, na melhor das hipóteses, a primeira pedra estará
lançada apenas em 2022, com conclusão em final de 2023. João Azevedo
traz a si um projeto inexistente que, nos anos em que esteve na
Assembleia da República tenha sido autor de nenhuma iniciativa nesse
sentido, sem que se conste na sua página de atividade parlamentar nada
mais que uma única referência breve a Viseu, ao CHTV e ao Centro
Oncológico de Viseu no debate parlamentar de 4 de maio de 2021 (bem
depois da sua apresentação como candidato à CMV), tendo inclusivamente o
seu partido votado contra a construção do CO-CHTV na Comissão
Parlamentar de Saúde.

Um dia esgotar-se-ão as estatísticas marteladas, as demagogias baseadas
numa realidade alternativa e a conivência geral com a degradação das
condições do Sistema de Saúde. E depois?”

 

 

Pedro Pereira é medico, tem 25 anos e militante da Iniciativa Liberal
desde inícios de 2019. Fez parte das listas da IL às Eleições
Legislativas de 2019 pelo Círculo Eleitoral de Viseu, é membro-fundador
do Núcleo Territorial de Viseu da Iniciativa Liberal e faz parte da sua
atual coordenação com os pelouros da Comunicação, Juventude e Saúde. Faz
também parte da Coordenação do Núcleo temático da Juventude da
Iniciativa Liberal, colabora com a equipa do Gabinete de Estudos para a
Saúde do Gabinete Parlamentar da IL junto da Assembleia da República e é
Conselheiro Nacional da Iniciativa Liberal desde dezembro de 2020. Na
campanha autárquica liberal, é cabeça-de-lista à Assembleia Municipal de
Viseu.

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