A Novela da Vacinação

345

A humanidade vive mais uma catástrofe, a pandemia por covid 19, que tem dizimado milhões de pessoas por todo o mundo. O aparecimento de vacinas, em tempo record nunca antes visto, criou uma esperança fundada de erradicação ou, pelo menos, controle desta praga.

Como em qualquer catástrofe, foram criadas regras de prioridade na administração das vacinas, que obedeceram a critérios, que, quer se concorde com eles ou não, são os existentes e têm de ser cumpridos e respeitados.

Crescemos orientados pelo princípio de que, em caso de naufrágio, o comandante é o último a abandonar o navio, mas a verdade é que, ao longo da história sempre existiram chicos espertos, que tentaram e conseguiram furar a regra. Na verdade, a história mostrou e o cinema retratou que houve quem roubasse crianças do colo da mãe para salvar a vida.

Esta situação pandémica expos o que de melhor possui a humanidade, relatos e relatos de histórias de um altruísmo sem par, perante o qual nos demos curvar e enaltecer, mas, lamentavelmente, mostrou também aproveitamentos vis e atrozes, que devemos denunciar e veemente repudiar.

Desde o início da vacinação, diariamente, somos bombardeados com notícias que nos mostram aproveitamentos na vacinação protagonizados, essencialmente, por aqueles que estão em cargos e funções que lho permitem.

Invocando justificações e interpretações rocambolescas e distorcidas, não tiveram qualquer pejo em desrespeitar a prioridade na vacinação. Perfeitamente conscientes que não integravam esse grupo, passaram à frente de todos e foram vacinados logo na primeira leda, mostrando que a máxima que o comandante é o último a abandonar o navio não os orienta. Não servem, mas servem-se.

Estes fura filas, expressão feia com direitos de autor que não nossos, mas elucidativa, atropelaram as regras, a lei, a moral e a ética para passar a frente. Porém, todos sem exceção, nos metem pelos olhos dentro, com uma aparente naturalidade e desplante de arrepiar, uma justificação para justificar o indefensável.

No que toca ao concelho de Sátão, vieram a público notícias, felizmente a comunicação social tem prestado um serviço público, que nos colocaram na ribalta nacional pelos piores motivos, que não podem deixar de nos envergonhar e repugnar. O presidente da Câmara, Paulo Santos, que reconhecidamente não preenchia os critérios de prioritário nesta fase de vacinação, afirma ter sido vacinado por fazer parte do conselho fiscal da Associação Elísio Ferreira Afonso, com sede em Avelal, órgão que reúne uma ou duas vezes por ano, em sala bem protegida dos utentes.

Confrontado com o fato de ter sido vacinado sem cumprir os critérios dos utentes prioritários desta fase, afirmou “Fui convidado para o efeito e aceitei de bom grado”.

O Senhor Presidente, coitado, segundo diz, não teve culpa nenhuma em passar à frente dos prioritários; chamaram-no e ele foi. Todavia, como grande Homem que é, se alguma coisa de errado fez, está pronto para aceitar as consequências, palavras suas. Quanta hombridade. A vacina e a imunidade que ela traz é que já ninguém lha tira, enquanto muitos munícipes do município que preside, embora com idade e patologias que o justificam, não o estão.

Por sua vez, o vice-presidente, Alexandre Vaz, não se limitou a passar à frente sozinho, ainda se fez acompanhar da família, pelo menos, segundo declarou na comunicação social a mulher e uma filha, também elas, nitidamente, não prioritárias nesta fase da vacinação.

O vice-presidente da Câmara Municipal de Sátão foi, na passada manhã de quarta feira, dia 10 de fevereiro de 2021, a vedeta principal de um canal televisivo, que, em direto, para Portugal e quiçá para o mundo mostrou a Associação de Solidariedade Social as Abelhinhas, com sede em Vila de Um Santo, Viseu, num lindo dia de sol, com as persianas bem fechadas, enquanto lá dentro eram vacinados o vice-presidente Alexandre Vaz, a mulher e uma filha. Porém, segundo o jornalista desta estação afirmou na reportagem, antes de se aperceberam da passagem da viatura caracterizada, as persianas estavam todas abertas e com utentes à janela.

Durante toda a manhã, o mesmo jornalista, esperou pacientemente à porta das Abelhinhas e periodicamente, foi informando os telespetadores que não lhes permitiam entrar, que aguardavam a saída do vice-presidente da Câmara de Sátão e da família e que apenas a filha tinha saído de forma apressada, tentando evitar ser identificada. Informou ainda que, citamos; numa primeira fase o Sr. Dr. Alexandre Vaz se defendeu e disse que presta voluntariado neste lar as Abelhinhas, a verdade é que os funcionários com quem temos mantido algumas conversas nos garantem que Alexandre Vaz, numa aí entrou nem prestou qualquer serviço aos idosos.

Várias horas mais tarde, num volte face dos acontecimentos, depois de tempo para pensar e preparar o cenário, recomposto, aparece o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Sátão, vestido a rigor, acompanho da Senhora Diretora técnica da Instituição dirigindo-se ao jornalista. Entrevistado, o Dr Alexandre Vaz alegou que, no seu entender tinha direito à vacina pelo facto de agora exercer medicina, relativamente à mulher e a filha disse, palavras suas; quanto à minha mulher e à minha filha, a minha filha não vem aqui agora, é preciso explicar isso, a minha filha há 7 ou 8 anos que aqui vem, são elas que manuseiam os medicamentos, é certo que a minha mulher não tem o curso de farmacêutica, mas vem sempre com a minha filha.

Registe-se; só um farmacêutico pode manipular medicamentos e sempre no laboratório da farmácia.

Ficamos, assim, a saber que, no entendimento do Senhor vice-presidente da Câmara Municipal de Sátão, a mulher e a filha têm direito à vacina porque há cerca de 7 ou 8 anos, a farmácia de que a família é proprietária, com sede na povoação de Lamas, tem a sorte de, apesar de se situar noutro concelho e a uma distância considerável, vender os medicamentos para este Lar e aí os entregar.

Será que todos os fornecedores de bens a esta Instituição as Abelhinhas, tiveram o mesmo tratamento e também eles foram vacinados?

Perante tudo isto, nós cidadãos comuns, temos o direito de questionar e saber quantas mais pessoas e com que justificação foram indevidamente vacinadas nesta Associação e noutras, esperamos que o tempo e a justiça, a seu tempo, nos esclareçam.

A verdade que, como todos os portugueses, o Sr. Presidente da Câmara de Sátão, os demais membros dos órgãos da Fundação Elísio Ferreira Afonso, também estes indevidamente vacinados na primeira fase, o Senhor vice-Presidente, a mulher e a filha, têm direito a ser vacinados, mas, como os demais cidadãos, no momento em que as normas estabelecidas o determinarem, não atropelando as regras e passando à frente dos outros, ao fazê-lo, desrespeitaram as normas e todos os portugueses.

Certamente que para todas as situações de vacinação indevida vai ser dada uma justificação perfeitamente lógica e aparentemente coberta pela lei, pelo menos para dos seus autores. Mas a verdade é que, vivemos numa situação em que o ser ou não vacinado pode fazer a diferença entre a vida e a morte e nestas situações extremas é que se vêm os valores, a ética, a moral e a honradez e somos levados a concluir que alguns, se tivessem o poder de passar sempre à frente dos outros, nada os deteria.

Sobre os que estão no comando e, por força disso, sujeitos a um maior escrutínio, incumbe um dever deverás acrescido de honradez, transparência e cumprimento das normas, como comandantes do barco que são, deviam dar o exemplo, ser os últimos a abandonar o navio e não correr e deixar os outros para trás.

 

Ricardo Santos

Jurista